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05/7/2016 - Caminho do mundo

O principal efeito positivo do novo patamar do câmbio é a queda do endividamento de companhias brasileiras. Mas a valorização do real no último mês trouxe o temor de que o dólar no nível atual afete o setor exportador. O bom desempenho no comércio exterior, no entanto, não depende apenas do câmbio favorável. Abrir e manter mercados deve ser uma atitude.

É preciso também um trabalho de longo prazo sempre adiado no Brasil: aumentar a produtividade e competitividade dos produtos brasileiros. No curto prazo, os esforços do governo interino para abrir negociações com outros países podem ajudar neste momento.

O caso mais evidente é o do setor automobilístico. O país renovou até 2020 o acordo automotivo com a Argentina. O prazo mais amplo era uma demanda antiga da Anfavea, a associação das montadoras. Antonio Megale, o presidente da entidade, conta que notou uma mudança na forma de atuar do governo.

“A atuação está mais equilibrada, com visão de longo prazo. Dessa vez, o governo procurou entender as demandas do setor. Do lado argentino também houve essa mudança. O prazo mais extenso permite planejar melhor. Depois do quarto ano, há o potencial para o livre mercado entre os países” conta Megale.

Agora a Anfavea e o governo estão mirando a África. A prioridade é celebrar acordos com Nigéria e Gana, e melhorar os termos com a África do Sul. Irã, no Oriente Médio, e Argélia também estão no radar. Em reuniões com empresas, o ministro José Serra tem falado que a estratégia é focar na abertura de mercados de países que vendem produtos ao Brasil. Ele citou os casos de Argélia e Nigéria, que embarcam para cá gás e petróleo leve e pouco compram das companhias brasileiras.

“Antes, na África, o Brasil se aproximava de países por afinidade. Hoje, a motivação é comercial. Há a tentativa de se reaproximar dos Estados Unidos, que eram um mercado importante para a manufatura do Brasil. Eles compravam 25% das exportações brasileiras e atualmente respondem por apenas 12% do total. Quem se aproveitou foi a China. Para reconquistar o espaço é mais difícil” conta José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB).

Parte do esforço para vender vem da fraqueza do mercado interno. As exportações crescem para ocupar o vazio deixado pelo consumo local. No ano até maio, o país embarcou 172 mil veículos leves, alta de 23,7% frente ao mesmo período de 2015; o total produzido, por outro lado, caiu 25,4%. Hoje, as vendas ao exterior representam 20% da produção; no mesmo período do ano passado era apenas 12%. Pelos dados da Secretaria de Comércio Exterior, no primeiro semestre os embarques de automóveis de passageiros cresceram 50%, em dólares.

A previsão da Anfavea é fechar o ano com 507 mil veículos exportados - incluindo caminhões e ônibus -, cerca de 90 mil a mais que em 2015. Megale conta que, nos anos em que a demanda interna estava aquecida, a busca por novos mercados perdeu força. As fábricas operavam no limite para atender à demanda local. Ele acha que daqui para frente será diferente. Os investimentos aumentaram a capacidade instalada das montadoras, que estão hoje com 50% de ociosidade.

O grupo Wilson Sons, que opera portos, notou a mudança no comportamento do mercado. Demir Lourenço, diretor-executivo do Terminal de Contêineres de Salvador, conta que a exportação aumentou 31% no ano até maio; no mês, a alta foi de 44% frente a 2015:

“Nos últimos meses, indústrias que já exportavam aumentaram o volume e também chegaram novos clientes. Empresas que têm pouca cultura exportadora estão buscando outros mercados. Em maio, pela primeira vez, embarcamos uva orgânica do Vale do São Francisco. O carregamento foi para o Reino Unido.

Nos seis primeiros meses do ano, a balança comercial registrou superávit de US$ 23,6 bilhões, um recorde no levantamento. Pela projeção do BC, o saldo da balança comercial vai ajudar o Brasil a reduzir o déficit em transações correntes para 0,87% do PIB neste ano. No ano passado, em 12 meses até junho, o indicador estava em 4,34%. O saldo, em parte, é pela queda forte das importações, em decorrência da recessão. As empresas precisam olhar o mercado externo não como complemento quando há crise aqui, mas como uma forma de conquistar espaço mundo afora de forma permanente.

Os pontos-chave

Sucesso das exportações não deve depender só do câmbio, mas também da disposição em abrir mercados

Há setores notando a diferença na atuação do governo interino, mais atento a oportunidades de negócio

Busca por novos mercados tem que ser uma estratégia e não apenas uma saída para a crise


Fonte: Diário de Pernambuco (Coluna Miriam Leitão)