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15/6/2016 - Crise exige ajustes em todas as áreas

Para enfrentar a recessão econômica, empresas são mais flexíveis nos contratos, compartilham cargas e reduzem preços para os clientes

Os provedores brasileiros de serviços de logística integrada amargam tempos difíceis, segundo os empresários do setor, por causa da recessão econômica. As dificuldades, alegam eles, enfraqueceram o comércio e provocaram queda nos negócios de 6,5% nos últimos 12 meses. Para enfrentar a situação, foram feitos ajustes nas operações de entrega das mercadorias; os contratos se tornaram mais flexíveis; armazéns, centros de distribuição (CDs) e frota de caminhões são compartilhados pelos clientes; enquanto os preços das tarifas cobradas diminuíram até o limite do possível, afirma Carlos Cesar Meireles Vieira Filho, diretor-executivo da Associação Brasileira de Operadores Logísticos (Abol), que reúne 25 dos maiores operadores do país, cujo faturamento anual é da ordem de R$ 44,5 bilhões.

“Não temos mais de onde tirar redução de preços, por isso, as prioridades são gestão de custo, qualidade operacional e mais eficiência”, diz Meireles. Ou seja, trata-se de fazer o gerenciamento mais eficaz das operações, buscar novos segmentos de negócio, incorporar clientes que possam trazer maior lucratividade e investir no aumento e melhoria da capacidade de atendimento. “Os resultados não serão imediatos, virão no longo prazo”.

A Braspress, uma das maiores transportadoras do país, faz o dever de casa, garante Urubatan Helou, presidente da empresa. Criou três novas divisões de negócios: uma voltada para a área internacional, atendendo ao crescente fluxo de mercadorias com Argentina, Uruguai e Paraguai; outra para o atraente segmento da indústria farmacêutica, que comercializa produtos de maior valor agregado; e uma unidade para atuar no business-to-consumer (B2C), todas respondendo de forma positiva à conjuntura. Além disso, fortaleceu as operações no Nordeste e investiu pesado na expansão dos centros de entrega de mercadorias: R$ 28 milhões no de Bauru, que vai desafogar as operações na capital paulista, e concluiu a mudança para uma área de 230 mil metros quadrados, em Guarulhos, na Grande São Paulo, onde foram gastos R$ 260 milhões. “Tivemos que fazer reengenharia dos processos e aumentar nossa capacidade instalada para atender a uma nova demanda de mercado que virá proximamente.”

A JSL, outra grande operadora que atua com mais de 220 filiais em 20 Estados e quatro países, 20 CDs e frota de 84,2 mil veículos e equipamentos, também passou por reavaliação estratégica. Buscou o máximo de sinergia no serviço oferecido aos clientes, inclusive investindo com tecnologias mais eficientes, diz Adriano Thiele, diretor-executivo de operações. Hoje, a empresa trabalha com 16 segmentos da economia, o que a deixa menos exposta às oscilações na demanda de mercados específicos. Se a indústria automobilística vai mal, as receitas são compensadas pela boa fase do setor florestal, de papel e celulose, destaca Thiele. Ele acrescenta que tais ações se refletem no alto índice de renovação dos contratos dos clientes (em torno de 80%) e na conquista de novos. “Nossa previsão é de crescimento de 12% da receita bruta de serviços, entre R$ 5,05 bilhões e R$5,35 bilhões em 2016.”

Os avanços não são gratuitos. “A pressão dos clientes, evidentemente, dez com que baixássemos os custos”, analisa Paulo Sarti, presidente da Penske Logistics no Brasil. Houve uma espécie de acomodação em várias áreas da cadeia logística, aponta ele. Os custos por metro quadrado dos armazéns, considerados dos mais altos do mundo, caíram em pelo menos 30%. Alguns modais de transporte, pouco utilizados, passaram a ser mais bem explorados. Foi o caso de clientes da área eletroeletrônica com fábricas em Manaus (AM) que traziam cargas para o Sudeste por modais rodofluviais e agora utilizam navios, no sistema de cabotagem.

A Penske mudou ainda a forma de operar, passando a ter uma equipe de engenheiros que trabalham dentro das instalações dos clientes, avaliando cargas e a melhor maneira de transportá-las. “Isso aumentou o fluxo de mercadorias”, diz Sarti. Ele posta em crescimento da receita da Penske em 15% em 2017.

No afã de reduzir custos, a Golden Cargo realizou um esforço em dois vetores: estrutura operacional e processos do negócio. No sentido estrutural, segundo Oswaldo Dias de Castro Junior, diretor-geral, a empresa revisou toda a rede de distribuição, formada por nove CDs, sete dos quais em polos de agronegócio, principal foco da companhia. “O resultado foi a redução da área de armazenagem e movimentação em três desses CDs, visando à diminuição de custos fixos e ampliação da capacidade de quatro centros.” Na parte dos processos, a revisão se deu nos sistemas de gestão, com ganhos de produtividade e redução de custos. “Podemos dizer que, passado o período de estabilização dessas ações, começamos a colher frutos neste ano no aumento do giro e ocupação da frota, redução de vacância dos CDs e melhoria geral no nível dos serviços ofertados”, diz Castro Junior.

Para alguns operadores, a renovação dos contratos é algo natural diante da flexibilidade adotada para atender os clientes no atual cenário econômico. E também por conta das inovações implantadas, que promovem redução dos custos logísticos dos clientes, afirma Michele Cohonner, presidente da FM Logistic do Brasil. “Fizemos adaptações de área e recursos (mão de obra e equipamentos), alterações de layout e inclusão de novas tecnologias à operação dos clientes.”

“Nossas ferramentas de alta performance diminuem os custos de 25% a 30%, dependendo do tipo de atividade. Isso melhora a produtividade, qualidade e expectativa dos clientes”, afirma.

Os melhores desempenhos da empresa, segundo Michele, estão sendo demonstrados pelos segmentos do e-commerce e pela indústria de cosméticos, enquanto a área automotiva é a mais impactada pela crise. “Independentemente da situação econômica, nossa perspectiva é dobrar de tamanho nos próximos três anos.”

Os ajustes nos custos dos principais itens da cadeira de operação logística, como os sistemas de armazenagem e transporte rodoviário, em algumas empresas proporcionaram conquistas imediatas. É o caso da DHL Supply Chain, que, desde junho se tornou responsável pelo novo projeto logístico E2E (end-to-end) da Duracell na América Latina. Até então marca de pilhas da P&G, a Duracell passou a operar de forma independente como uma nova empresa, a Duracell Company, e contratou a DHL para promover uma solução abrangente de logística integrada para a América Latina, da fabricação até o distribuidor. “É uma solução que traz grande flexibilidade para a operação da Duracell no Brasil e em outros países, como Chile, México e Panamá”, diz João Prada, diretor de operações da DHL.

Ainda em junho, a operadora assumiu a gestão de armazenagem e distribuição da Pernod Ricard, multinacional de origem francesa que opera no segmento de bebidas alcoólicas. Além do CD de Louveira (SP), a DHL passou a operar a logística dentro do armazém de Resende (RJ) e Supae (PE). O contrato abrange a gestão do almoxarifado de insumos, o abastecimento das linhas de produção e a gestão do CD de produtos acabados.

Atuar em áreas específicas, de alto potencial de negócio, é outra estratégia de sucesso. A Pacer Logística é uma empresa de médio porte que decidiu atuar fortemente no segmento de telecomunicações, que responde por 68% de seu faturamento. Recentemente, fechou contrato com a multinacional chinesa Huawei, o que representou mais 8% no faturamento da carteira de clientes de frete fracionado, segundo Alexandre Caldas, presidente da companhia. Neste ano, diz ele, a Pacer espera crescer 20% e ampliar a participação do frete fracionado nos negócios, que significa 38% do faturamento total da empresa.

A mais nova unidade de negócios do Grupo Wilson Sons, uma das maiores operadoras de serviços portuários, marítimos e logísticos do país, a Wilson Sons Logística se tornou em pouco tempo o principal provedor de serviços logísticos para a área de equipamento solar e eólico, atividade em expansão no Brasil. Segundo Thomas Richtter III, diretor da Wilson Sons Logística, a empresa atua em toda a cadeia, com uma solução integrada – desde a chegada da mercadoria importada, num porto ou aeroporto, até a hora em que vai para a distribuição final, e no fluxo inverso. É uma solução que opera em plataformas regionais. No Sudeste, onde tem o maior terminal alfandegário em operação; em Santo André, na Grande São Paulo; e no Porto Suape (PE), também com o terminal alfandegado.

Para o setor eólico, a Wilson Sons transporta grandes peças (pás e motores), com infraestrutura preparada no terminal de Suape com capacidade para receber equipamentos presados e armazená-los. No caso dos clientes de energia solar (placas solares), os equipamentos são transportados em contêineres e depois operados por uma rede de transporte que realiza mais de 4 mil viagens por mês. Em 2015, o grupo faturou US$ 550 milhões. A área de logística representa 7% da receita total, indica Richtter III.

A desconcentração da atividade logística é outra aposta dos operadores. Especializada em e-commerce e com forte atuação no Norte, a PacíficoLog investe na expansão das atividades no Mordeste, inaugurando filiais próprias em Salvador (BA), Recife 9PE), Fortaleza (CE) e Campina Grande (PB). “Expandir a base de filiais expedidoras ou captadoras de novos negócios aliados à ação de distribuição em todo o Nordeste renderam crescimento de mais de 11% em julho deste ano”, diz Tarso Lumare, gerente nacional de vendas. “Nossa projeção para o fim deste ano é de crescimento de 30% a 40%.”

 

 


Fonte: Valor Econômico