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07/11/2018 - Espaço na carteira

O impacto da crise da construção naval, que atingiu fortemente os grandes construtores nos últimos quatro anos, cada vez mais atinge os estaleiros especializados em embarcações de serviço. Com a entrega das últimas embarcações em carteira, estaleiros de médio porte também caminham para ficar com ociosidade já a partir deste final de ano. A baixa perspectiva para o curto prazo, principalmente de novos projetos de barcos de apoio marítimo, fez empresários prestarem mais atenção em projetos de menor porte, como barcaças e empurradores, inclusive até pequenas embarcações para o exterior.

Os estaleiros reconhecem as dificuldades de surgir um novo ciclo de encomendas e procuram novas oportunidades. Ainda existe demanda importante por embarcações para navegação interior e poucas entregas de rebocadores previstas. Outra aposta são as alterações para destinação de parte dos recursos do Fundo da Marinha Mercante (FNIM) para projetos da Marinha, como navios-patrulha e embarcações de pesquisa.

A atual carteira de novas construções da Wilson Sons se restringe a rebocadores. Além do rebocador WS Sirius, que será entregue até o final do ano para Wilson Sons Rebocadores, a carteira de construção do estaleiro tem outros dois barcos de apoio portuário, sendo um para a própria Wilson Sons Rebocadores e outro rebocador para a Saam Smit. O WS Sirius, que será entregue até o final deste ano, terá 90 toneladas de tração estática (bollard pull).

O estaleiro tem programado mais três docagens até o final de 2018. Para o próximo ano, 12 docagens já foram confirmadas, além da conversão de um PSV (transporte de suprimentos) para SDSV para a Wilson Sons Ultratug Offshore. A Wilson Sons Estaleiros também é parceira do consórcio formado pela Damen e pela Saab, que participa da licitação para construção de quatro corvetas para a Marinha.

A empresa tem recebido algumas consultas sobre mais rebocadores de maior potência. A avaliação é que a tendência de demanda mundial é por embarcações com 70 TBP em diante. O diretor-executivo da Wilson Sons Estaleiros, Adalberto Souza, explica que tem conversado com alguns armadores, mas essa tendência deve demorar algum tempo para se consolidar. Ele acrescenta que não consegue enxergar um novo boom de construção de barcos de apoio, especialmente PSVs, tão cedo com esse nível de ociosidade de embarcações no mundo.

A Wilson Sons tem se voltado para manutenção e procurado clientes que possam docar no estaleiro. Souza reconhece que é um mercado difícil, onde o Rio tem uma base grande e preços atrativos. Por conta da distância do Rio de Janeiro até o Guarujá, o estaleiro da Wilson Sons em alguns casos oferece descontos no custo do diesel da fatura do cliente. "Temos um grupo por trás que dá suporte financeiro. E um diferencial em relação aos estaleiros hoje", destaca Souza.

O estaleiro também aposta na manutenção de bons índices de segurança, meio ambiente e saúde (SMS) e na propaganda de clientes satisfeitos para atrair novos serviços. Segundo o diretor, 2018 foi ano bom em serviços de manutenção e docagem, o que ajudou a manter média de 250 empregados. A conservação desses postos de trabalho em 2019 ainda é incerta e vai depender do desenrolar da economia e dos projetos do governo no próximo ano.

De acordo com o diretor, a grande chance de mudança começa com os projetos de renovação da Marinha. Além das corvetas, os estaleiros estão atentos à possibilidade de o Congresso aprovar ainda este ano, ou no início do próximo governo, a lei que permite destinar até 10% do FMM para renovação da esquadra da Marinha. Ele identifica uma demanda por renovação de navios da força naval, como navios-patrulha. "O mercado offshore está reaquecendo, mas o impacto para a construção demora", compara Souza.

Em outubro, o estaleiro iniciou a docagem do maior navio já recebido em suas instalações, o Oil tanker M. T Amalthia, com 99,6 m de comprimento e 18 m de boca. A operação tem duração prevista de 10 a 15 dias. A embarcação, que tem bandeira das Ilhas Marshall e pertence ao armador grego Medtankers Management, opera em Santos desde 2011, como navio abastecedor de combustíveis, afretado pela Transpetro/Petrobras.

Para Souza, um dos grandes desafios é o curto tempo de docagem, dadas as dimensões do navio. Entretanto, Souza garante que o estaleiro está preparado para a operação, para a qual foi escolhido justamente por sua infraestrutura, práticas de segurança e localização privilegiada. "Realizamos serviços de docagem para o M. T. Amalthia e o SmitPareci simultaneamente. Considerando estas duas docagens, já totalizamos 20 operações deste tipo no ano e temos outras três agendadas até o final de 2018", afirma Adalberto Souza.

O executivo acrescenta que a Wilson Sons Rebocadores fez os serviços de rebocagem do M. T Amalthia, demonstrando a sinergia dos negócios. "Tivemos uma manobra com o rebocador WS Pegasus para atracar o navio no cais. Dois dias após esta manobra, utilizamos os rebocadores Atria e Hadar para atracar a embarcação no dique", conta.

A empresa também procura clientes no segmento da cabotagem. No radar estão emrpesas como a Elcano, que tem gaseiros com tamanhos que cabem no estaleiro. "A cabotagem é um mercado que o Brasil explora pouco. Com essa crise, esse mercado deveria ser mais explorado. Se os armadores se interessarem, temos capacidade para construir esse tipo de navio aqui", projeta Souza.

A Indústria Naval do Ceará (Inace) pretende entregar três rebocadores de grande porte que empurrarão barcaças com até 150 mil toneladas na rota entre o Rio Tapajós e Vila do Conde (PA), passando por Miritituba. As novas unidades vão empurrar barcaças com capacidades que variam de 40 a 50 mil toneladas. A logística é necessária para que os grãos cheguem até navios Panamax para exportação. Em 2017, a Inace entregou à Cargill dois empurradores com capacidade de mover até 25 mil toneladas cada.

O estaleiro também prevê a entrega de uma nova barca para a secretaria estadual de transportes do Rio de Janeiro em novembro. A obra chegou a ser paralisada e agora está prestes a ser entregue. Segundo a Inace, a embarcação foi construída em alumínio e atinge velocidade de até 21 nós.

O presidente da Inace, Antonio Gil Bezerra, afirma que o estaleiro atende variados tipos de embarcações, desde empurradores e rebocadores até iates e navios militares. "Somos o único estaleiro nos últimos 40 anos que construiu e entregou navios militares no prazo", destaca. Ele lembra que a construção de embarcações pesqueiras foi impactada nos anos 1990 com a valorização do real frente ao dólar. Na época, a Inace chegou a fazer entre 60% e 70% desse tipo de embarcação, mas as exportações de pescados desandaram e empresas quebraram porque o dólar chegou a valer menos de R$ l.

A construção de iates também sofreu efeito do câmbio após a Inace se tornar um exportador desse tipo de embarcação, antes atendido por estaleiros na Europa. Bezerra destaca que o Inace plantou uma indústria que lhe rendeu a venda de mais de 40 iates, de até 140 pés, para todo o mundo. A maior parte deles está nas regiões do Mar Báltico, Croácia e Rússia.

Bezerra conta que, nos últimos anos, mais de 10 embarcações que estavam em carteira ficaram paradas por causa do realinhamento da Petrobras. Segundo o empresário, esses projetos somavam mais de 150 milhões de dólares e estão virando sucata no estaleiro. Alguns armadores se encontram em situação difícil por conta de cancelamento de contratos junto à estatal.

Outras embarcações foram paradas devido à crise econômica do país. Algumas delas, segundo Bezerra, já foram retomadas. Ele cita uma série de seis navios oceanográficos, que voltou a ser construída depois de seis meses parada. Até o momento, três deles foram entregues e o estaleiro quer terminar os demais. São navios oceanográficos de 32 metros cada. Bezerra ressalta que esses navios foram ganhos em concorrência, que costuma ser disputada no Brasil em relação aos preços. O estaleiro pretende entregá-los até o começo de 2019.

Atualmente, a Inace emprega cerca de 700 pessoas, metade dos 1.500 trabalhadores do quadro do estaleiro em 2017. A maior parte do efetivo deixando o estaleiro é de pessoal de pátio. O estaleiro tem dois elevadores de navios com capacidade para 3.000 toneladas. Bezerra ressalta que a Inace consegue fazer seguro-garantia, o que grande parte dos estaleiros não consegue. Ele diz que a maior dificuldade dos clientes hoje é encontrar um construtor que tenha esse certificado de garantia.

Bezerra destaca a importância do tamanho da construção naval e que as autoridades precisam buscar entender a situação dos estaleiros. Ele fala que hoje nenhum estaleiro nacional pode dizer que está bem em relação à carteira, desde os mais novos até os mais tradicionais. Uma das expectativas da Inace está nas embarcações para escoamento de grãos. "A cada grão que se produz aumenta quantidade de balsas e empurradores que os levarão para navios Panamax", estima.

A equipe da Inace está com radar ligado para demandas no exterior. Recentemente, o estaleiro participou de uma concorrência no Panamá para construção de rebocadores. Bezerra explicou que os licitantes exigiam estaleiros com mais de 20 rebocadores construídos nos últimos cinco anos. Como o estaleiro cearense construiu IO rebocadores de 60 toneladas no período, a proposta não foi aceita.

O estaleiro também participa da concorrência para construção de uma cábrea. "Lutamos para atender novos mercados, mas não está fácil. Tentamos entrar novamente na exportação de iates, mas devido à situação do Brasil é complicado. A maior parte das empresas brasileiras está em situação de crédito difícil. Como vamos tirar esse atraso eu não sei", analisa.

Em 2018, o Estaleiro Rio Maguari (ERM) entregou cerca de 30 barcaças e dois empurradores fluviais. Até o final do ano, a expectativa é completar 50 barcaças e cinco empurradores fluviais entregues, dentre os quais dois grandes empurradores de cerca de 6.000 HP cada, azimutais. "Continuamos construindo barcaças e empurradores para os principais operadores do transporte de grãos. Também iremos iniciar uma balsa guindaste de grandes proporções para entrega no final de 2019, também para atuação no mercado de grãos", conta o diretor comercial do ERM, Fábio Vasconcellos.

O Rio Maguari informa que continua à procura de novos projetos. Atualmente, o estaleiro emprega cerca de 390 trabalhadores, cuja manutenção para 2019 deverá ser mantida. O estaleiro aposta na engenharia, em sua escala e na produtividade para sobreviver à alta competitividade no mercado da construção naval brasileira.

Na avaliação do ERM, o cenário para os próximos anos é positivo, a não ser que haja uma "catástrofe econômica improvável" com a entrada do novo governo. O estaleiro acredita na continuidade do crescimento de escoamento de parte importante dos grãos produzidos no Centro-Oeste pelos portos da região Norte. "A verdadeira retomada ocorrerá a partir do estabelecimento de uma trafegabilidade confiável da BR-163 e da implantação da Ferrogrão, que demandarão aumento significativo da frota de comboios fluviais graneleiros", analisa Vasconcellos.

O ERM vê boas perspectivas para o mercado fluvial para os próximos anos com a natural vantagem logística dos portos do Arco Norte. O estaleiro também aposta no mercado de apoio portuário, não apenas para o Brasil, mas para operadores de países da América do Sul e América Central. Vasconcellos ressalta que o estaleiro consegue oferecer preços competitivos para atender a este mercado, com a vantagem de sua localização.

Em outubro, o estaleiro Detroit Brasil (SC) entregou a última unidade da série de sete rebocadores encomendados pela Aliança Navegação e Logística. A Aliança pretende utilizar os sete rebocadores em portos brasileiros para oferecer apoio às atracações de diversos armadores, sobretudo Maersk, Hamburg Süd e a própria Aliança.

O rebocador, assim como os três anteriores (Aliança Levante, Aliança Mistral e Aliança Tramontano), tem alto nível de automação. Com 32 metros de comprimento e 70 toneladas de tração estática, o Aliança Bora é considerado um rebocador de última geração, da classe Automatic Bridge Centralized Control Unmanned, que permite o comando e o monitoramento integrais dos controles do sistema de propulsão a partir do passadiço. Para o diretor superintendente da Aliança e Hamburg Süd, Julian Thomas, a tecnologia embarcada é um diferencial da série, que trará ainda mais segurança às atracações.

O Estaleiro São Miguel (RJ), do grupo Bravante, fechou o segundo contrato com a Navenor Serviços Marítimos, controlada pelo grupo Salinor, para construção de um navio graneleiro a ser utilizado para transporte de sal na região Nordeste. Com capacidade para transporte de 2.751 toneladas de sal, o navio está previsto para ser entregue em junho de 2019. O primeiro graneleiro, com capacidade para 2.162 toneladas de sal, foi entregue em maio. De acordo com o Estaleiro São Miguel, a primeira unidade já está em operação no terminal salineiro de Areia Branca, próximo ao litoral do Rio Grande do Norte.

O estaleiro avalia que as duas obras, realizadas integralmente com mão de obra e serviços nacionais, impulsionam o mercado de trabalho e a indústria local. A empresa informa que serão gerados aproximadamente 350 empregos diretos e indiretos na obra do segundo salineiro. O gerente de engenharia do São Miguel, Marcelo Delano, destacou que o estaleiro é um dos poucos a fechar um contrato de construção em 2018. "O know-how conquistado em oito anos de construção de navios especializados e a excelência da nossa equipe técnica foram decisivos para essa conquista", afirma Delano.

O Vard Promar (PE) tem poucos projetos em carteira até o final de 2018. A previsão é que um navio lançador de linhas rígidas e flexíveis (PLSV) para a DOFCON, consórcio entre a DOF e a TechnipFMC, seja entregue em dezembro. O estaleiro também constrói uma passarela flutuante para um cliente da Jamaica. O projeto, que envolve processamento e fabricação de aço para uma unidade flutuante, deve ser concluído também no final deste ano.

O Vard Promar tem mantido conversas em busca de outros trabalhos mais imediatos enquanto aguarda o resultado da concorrência para construção de quatro corvetas para a Marinha. O vice-presidente sênior da empresa, Guilherme Coelho, estima que o vencedor tenha intervalo de um ano entre a assinatura do contrato e o início de construção.

Para a indústria naval ser mais competitiva, o Sindicato Nacional da Indústria da Construção e Reparação Naval e Offshore (Sinaval) identifica necessidade de demandas consistente que permitam a evolução da curva de aprendizado e, consequentemente, a possibilidade de disputar mercado. A Petrobras ainda é principal demandante da indústria naval brasileira, mas reconhece que essa característica se perdeu, nos últimos anos, em prol da recuperação do seu caixa. O Sinaval identifica que a Marinha brasileira tem necessidade de renovação de sua frota, com mais de 30 anos, e que a indústria naval brasileira tem plena capacidade de absorver essa demanda.


Fonte: Portos e Navios